segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sentir é questão de pele, amor é tudo que move.

mèrci, Gilberto G.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

aCme

em branco
estado pleno
caibo eu perfeitamente em meu corpo
e subitamente,
num ardido grunhido,
dele me descolo.

é de prazer que falávamos
e foi por ele que,
(de fôlego preso)

águasas
caí
ram.

quarta-feira, 31 de março de 2010

o embate bruto com um objeto concreto faz com que eu, de repente, me sinta existente também como um objeto duro.

pela dor se faz contornos e concretude além da efemeridade da carne que pensa.

Osso tão duro quanto muro, tão quina quanto encontro de dois, tão rígido quanto o que pode, de súbito, esfacelar,

resta verbo?

segunda-feira, 29 de março de 2010

estrangeira still. brega in

in other mood
I felt like falling
in other language
just fighting to find out
other words with other sounds
to sound me different
to say me whispering
to calm (me) down
on stairs
on stars
on stage
one´s self
such thing just happens
someone is lost
souls are in dust
so sing me in a swing all

I, bet-bat,
better stop me in you.

segunda-feira, 22 de março de 2010

pontacabeça

Entre um passo e outro
um abismo.
Na iminência
fico eu paralisada,
gelo na boca do estômago
febre no peito
raízes nas costas
asas nos pés
tudo ao invés
ao revéz
diz-me:
onde?
ao norte
gente?
onde andas!
como estar-me
eu
existir posso
só.




solo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

foi me dado um presente:
enxergar cores vibrantes
no dia em que desbotava.
foram tantas tantas tantas
que estômago embrulhou,
fraquejaram as pernas,
acelerou o coração.
o verde dos olhos de hoje,
o amarelo da flor,
cinza da cidade,
vinho de minhas unhas,
como se cada novo objeto
fizesse romper corte na pele
e restei eu.
morta de cansada
de ser atravessada.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

apelo pela pele

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

indago do que mais além das formas, cabelos e trejeitos são feitas as mulheres para que possam sê-las desnudas e rudes. Fortes e potentes.

Salsinhas do jardim, parem de me ameaçar com a morte prematura!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

eu,
verão.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

gratidão

Quem me vê andando na rua pensa que eu sou otimista. Ainda insisto em exibir a pele mais escura, os passos como quem pisa em areia fina, o olhar perdido e contemplativo. Muito otimismo ao fingir o sol, ver cor no céu e desprezar perigos nos cruzamentos. Penso que meus cabelos cresceram muito, já quase sinto-os tocarem os ombros, vez ou outra exibo-os presos pois posso agora detê-los num prendedor qualquer.
À primeira pergunta iria logo advertir que ainda não aterrizei, que ainda espero ansiosamente por palavras carinhosas na caixa de e-mails, cartões-postais debaixo da porta, um presente atrasado. Agradeço pelas ervas de melissa para fazer chá calmante, pelo livro usado e rabiscado, pela despedida no caminho de casa, pela pizza - acabaríamos em pizza para não fugir da regra - mesmo que tudo isso tenha sido apenas anunciado e intensionado.
De real percebo, logo na entrada de casa, e então agradeço à vitalidade das plantinhas por não se entregaram mesmo com minha ausência. Espero também, com força e de mãos apertadas, não me entregar à introspecção exagerada, à arrogância de não mais poder compartilhar, à vontade de tirar coisas do currículo e apagar biografias.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

carta em branco

Nesse dia em que eu o havia matado em mim nos sonhos, algo me acorda de mim, assim, logo de manhã e desprevinida, um bom dia! descuidado para dizer que: encontros somente mediados por recursos tecnológicos.
Feliz ano novo!, eu disse, mesmo sabendo que os anos nos mostram felizes e tristes, como tem que ser, com a vida damos, e desejar nos cabe.
Férias e noites de bom sono ajudam a digerir, devo sempre aconselhar-me.
Terão a delicadeza de me receber, afirmo e indago.
Mesmo ano novo, pulsa meu lado ingênuo e escancaro o que não sei da forma, não sei dar forma, não sei se forma tem.
Não é de mim formatar fins, nem começos, nem burocratizar o por vir, mas não quero prolongar o que não tem vida, o que já morreu, não quero chegar atrasada ao encontro, não quero levar adiante o que já causou dor de outrora.
No que me apresenta em branco, no branco em que eu pulei ondas, tomei chuva e me inundei em mar, resta o frescor e o balanço salgado, e tudo que eu pude deixar mar a fora, e transformar maradentro.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

m
eu
pote de cerâmica predileto levou um tombo.
.
aos meus olhos em pânico mostrou-se um rasgo, uma fenda. depois outra
e outra,
outra,
até que,
enfim,
superfície desertou.
Pude ver o que antes era imaginado: a cor do barro seco.
Agora se esfacela aos meus dedos no acariciar de seu bojo.
Quero reparar:
botar cola
passar guspe
forçar minha fôrma antiga.

Revolto pote
se mostra desconjuntado, retalhado, do avesso.
euvaso, em expansão do vazio,
busco artesão cuidadoso, mão leve, silêncio e calma.
Façamos beleza dos cacos.

sábado, 5 de dezembro de 2009

lógica para

Porque todo desejo é forte demais para realizar-se porque o que me olha é caolho. Porque a solidão hoje é minha familiar escolha. Sento-me e ouço a voz dos anjos, porque música arrebata.
Porque vi uma ruga na testa, sinto envelhecer o caule em terra infértil, porque rugas do tempo não devem ser preenchidas. Porque comunicar parece tarefa impossível, só verso e nunca prosa, sozinha me verso, porque estamos fora de moda, porque me interesso em porques, finjo calma à toda troca, porque espero que não cheguem ao final deste, minto, minto muito, para enebriar a quem possa entrar, porque sou quase translúcida e meu coração salta, por você que quase não sabe o que sente, por mim que não sei como ainda, vou me retirando ao futuro, grande já presente, em gerundio contínuo e redundante, indo, que me cabe bem, obrigada.

domingo, 29 de novembro de 2009

janela

Olhos semi-cerrados
formam-se aos poucos
contornos
sob luz tímida de outro canto.

Aqueles dois sapatos posicionados ao meu lado são testemunhas do meu caminhar até aqui, com pernas próprias.

Olhos entre-abertos
refaço as imagens da cidade amanhecendo.
Pelos meus olhos passam tantos e molham os meus
nos seus
vejo e não vejo
apagam-se contornos
nos cachos do cabelo bagunçado
gotejam comigo
a serenidade da cidade,
o que em mim,
de mim
serena.

Arregalem-me, olhos
para que luz de outro canto adentre.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Na magreza
pouca pele entre nós
é possível sentir meu pulso.

O seu
pausa,
o meu
vôo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

pretere

Deixam de te olhar e você finge uns dois balançar de ombros largados num respiro final.
Finalizado.
Você estampa um sorriso amarelo, produz gargalhadas regadas à alcool, acelera o passo duro, o corpo duro, os olhos duros.
Prefere não comentar.
Quer colocar o coração num pote grande, com cubos de gelo, para sentir o frescor.
-Prefere não comentar?
-Prefiro.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

palavra e meia

Queria escrever
em letras garrafais,
com jatos gordos de tinta preta,
num muro ainda branco,
uma palavra bem grande.

Para tirar do corpo
e me atirar no muro
em cima de palavrão,
vazar preto do ódio
embate mudo duro na carne.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mania a minha
querer ver
belezinha,
bem-aventurados,
bem-intensionados.


Até os bem-casados
tem acúcar cristalizado.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ao calor do sol e da lua estouraríamos
numa explosão única e audível
possíveis seriam
escamas
ou asas.
Então, por que pernas?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

prólogo para pó

Tive nessa noite algo de crise verborrágica, de excesso mesmo, redundante mesmo. Tentei dar forma em forma de escrita de garranchos no meu caderninho delicadamente guardado sobre o criado-mudo ao lado da cama. Na mudez do criado, paciente na escuta, alguns partos de partida prá quem onde sabe chego. Prá onde, quem sabe, chego. Prá quem chego onde sabe-nos. Prá quem chega e me parte.

Palavra palavra palavra palavrapalavrapalavra,
solto aos poucos, sem certeza de interlocutores. Vocês, se existem, não me deixam saber. Silensiosos ao som dos meus dedos em dígitos me abandonam no generoso espaço vazio, potente pelo o que ainda não sabemos. Prossigo. Mais um pouco, mesmo sentindo o tempo da morte se aproximar lentamente: a textura da minha leitura, meu leite que derrama, acho que tem prazo final.
Então sirvo, ainda quente, em bandeja fria e lustrosa:
deleitem-me.


(Permitida a primeira garfada, delicadeza no corte, por favor. Sigam em goles longos.)