m
eu
pote de cerâmica predileto levou um tombo.
.
aos meus olhos em pânico mostrou-se um rasgo, uma fenda. depois outra
e outra,
outra,
até que,
enfim,
superfície desertou.
Pude ver o que antes era imaginado: a cor do barro seco.
Agora se esfacela aos meus dedos no acariciar de seu bojo.
Quero reparar:
botar cola
passar guspe
forçar minha fôrma antiga.
Revolto pote
se mostra desconjuntado, retalhado, do avesso.
euvaso, em expansão do vazio,
busco artesão cuidadoso, mão leve, silêncio e calma.
Façamos beleza dos cacos.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
sábado, 5 de dezembro de 2009
lógica para
Porque todo desejo é forte demais para realizar-se porque o que me olha é caolho. Porque a solidão hoje é minha familiar escolha. Sento-me e ouço a voz dos anjos, porque música arrebata.
Porque vi uma ruga na testa, sinto envelhecer o caule em terra infértil, porque rugas do tempo não devem ser preenchidas. Porque comunicar parece tarefa impossível, só verso e nunca prosa, sozinha me verso, porque estamos fora de moda, porque me interesso em porques, finjo calma à toda troca, porque espero que não cheguem ao final deste, minto, minto muito, para enebriar a quem possa entrar, porque sou quase translúcida e meu coração salta, por você que quase não sabe o que sente, por mim que não sei como ainda, vou me retirando ao futuro, grande já presente, em gerundio contínuo e redundante, indo, que me cabe bem, obrigada.
Porque vi uma ruga na testa, sinto envelhecer o caule em terra infértil, porque rugas do tempo não devem ser preenchidas. Porque comunicar parece tarefa impossível, só verso e nunca prosa, sozinha me verso, porque estamos fora de moda, porque me interesso em porques, finjo calma à toda troca, porque espero que não cheguem ao final deste, minto, minto muito, para enebriar a quem possa entrar, porque sou quase translúcida e meu coração salta, por você que quase não sabe o que sente, por mim que não sei como ainda, vou me retirando ao futuro, grande já presente, em gerundio contínuo e redundante, indo, que me cabe bem, obrigada.
domingo, 29 de novembro de 2009
janela
Olhos semi-cerrados
formam-se aos poucos
contornos
sob luz tímida de outro canto.
Aqueles dois sapatos posicionados ao meu lado são testemunhas do meu caminhar até aqui, com pernas próprias.
Olhos entre-abertos
refaço as imagens da cidade amanhecendo.
Pelos meus olhos passam tantos e molham os meus
nos seus
vejo e não vejo
apagam-se contornos
nos cachos do cabelo bagunçado
gotejam comigo
a serenidade da cidade,
o que em mim,
de mim
serena.
Arregalem-me, olhos
para que luz de outro canto adentre.
formam-se aos poucos
contornos
sob luz tímida de outro canto.
Aqueles dois sapatos posicionados ao meu lado são testemunhas do meu caminhar até aqui, com pernas próprias.
Olhos entre-abertos
refaço as imagens da cidade amanhecendo.
Pelos meus olhos passam tantos e molham os meus
nos seus
vejo e não vejo
apagam-se contornos
nos cachos do cabelo bagunçado
gotejam comigo
a serenidade da cidade,
o que em mim,
de mim
serena.
Arregalem-me, olhos
para que luz de outro canto adentre.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
pretere
Deixam de te olhar e você finge uns dois balançar de ombros largados num respiro final.
Finalizado.
Você estampa um sorriso amarelo, produz gargalhadas regadas à alcool, acelera o passo duro, o corpo duro, os olhos duros.
Prefere não comentar.
Quer colocar o coração num pote grande, com cubos de gelo, para sentir o frescor.
-Prefere não comentar?
-Prefiro.
Finalizado.
Você estampa um sorriso amarelo, produz gargalhadas regadas à alcool, acelera o passo duro, o corpo duro, os olhos duros.
Prefere não comentar.
Quer colocar o coração num pote grande, com cubos de gelo, para sentir o frescor.
-Prefere não comentar?
-Prefiro.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
palavra e meia
Queria escrever
em letras garrafais,
com jatos gordos de tinta preta,
num muro ainda branco,
uma palavra bem grande.
Para tirar do corpo
e me atirar no muro
em cima de palavrão,
vazar preto do ódio
embate mudo duro na carne.
em letras garrafais,
com jatos gordos de tinta preta,
num muro ainda branco,
uma palavra bem grande.
Para tirar do corpo
e me atirar no muro
em cima de palavrão,
vazar preto do ódio
embate mudo duro na carne.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
prólogo para pó
Tive nessa noite algo de crise verborrágica, de excesso mesmo, redundante mesmo. Tentei dar forma em forma de escrita de garranchos no meu caderninho delicadamente guardado sobre o criado-mudo ao lado da cama. Na mudez do criado, paciente na escuta, alguns partos de partida prá quem onde sabe chego. Prá onde, quem sabe, chego. Prá quem chego onde sabe-nos. Prá quem chega e me parte.
Palavra palavra palavra palavrapalavrapalavra,
solto aos poucos, sem certeza de interlocutores. Vocês, se existem, não me deixam saber. Silensiosos ao som dos meus dedos em dígitos me abandonam no generoso espaço vazio, potente pelo o que ainda não sabemos. Prossigo. Mais um pouco, mesmo sentindo o tempo da morte se aproximar lentamente: a textura da minha leitura, meu leite que derrama, acho que tem prazo final.
Então sirvo, ainda quente, em bandeja fria e lustrosa:
deleitem-me.
(Permitida a primeira garfada, delicadeza no corte, por favor. Sigam em goles longos.)
Palavra palavra palavra palavrapalavrapalavra,
solto aos poucos, sem certeza de interlocutores. Vocês, se existem, não me deixam saber. Silensiosos ao som dos meus dedos em dígitos me abandonam no generoso espaço vazio, potente pelo o que ainda não sabemos. Prossigo. Mais um pouco, mesmo sentindo o tempo da morte se aproximar lentamente: a textura da minha leitura, meu leite que derrama, acho que tem prazo final.
Então sirvo, ainda quente, em bandeja fria e lustrosa:
deleitem-me.
(Permitida a primeira garfada, delicadeza no corte, por favor. Sigam em goles longos.)
sábado, 31 de outubro de 2009
clear
olho paro o dia de dentro
que é noite quente
e ando ardendo sem pudores para palavras
pois você, tela branca, aceita tudo.
e eu, tingida de cores, retiro-me em reticência
...
que é noite quente
e ando ardendo sem pudores para palavras
pois você, tela branca, aceita tudo.
e eu, tingida de cores, retiro-me em reticência
...
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
bicho, grilo e havainas
outra gravidade
pouca gravidade
eu grávida de idéias
em estado contemplativo
o pensamento no correr das águas
temperatura ideal
som de bicho
som de mato
som do corpo
todos desejos de renovação
pouca gravidade
eu grávida de idéias
em estado contemplativo
o pensamento no correr das águas
temperatura ideal
som de bicho
som de mato
som do corpo
todos desejos de renovação
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
confissão número 3
Descobriram que o sono não conteve o impulso motor. Caminhei e deitei na cama ao lado. Que sou sonâmbula. Então, a partir de hoje, escondo: eu e a chave da porta que dá para rua. Causa arrepios de repente descobrir-me em lugar qualquer, sem estar eu em mim do jeito habitual, desnudando-me por onde por quem prá que, em sonho...
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
ao pé do ouvido
Se boca com palavras
se palavra com boca
se dentadas
se grunhidos
se sussurro
na língua restam outras
na boca
outros
Se dizer faz gritar em silêncio,
calo-me.
E então,
ouve?
se palavra com boca
se dentadas
se grunhidos
se sussurro
na língua restam outras
na boca
outros
Se dizer faz gritar em silêncio,
calo-me.
E então,
ouve?
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
ponto, parêntese e reticência
...peço: alguns quilômetros de trilhos para o coração que descarrilha.
espaço e tempo
espaço
espaço e tempo
espaço
e tempo.
abre parêntese
abre parêntese
e também:
pernas novas e fôlego ao corredor cansado
sol para a mulher que madruga
pele
pele
pele
pele
um suspiro
fecha parêntese
sábado, 3 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
do caderninho antigo 1
Só leve como
sopro, só vento.
Sinto só
sonho
Pó,
leve como sopro.
Sol venta
sopro, só vento.
Sinto só
sonho
(...de setembro de 2005)
Pó,
leve como sopro.
Sol venta
terça-feira, 29 de setembro de 2009
das agulhas
Entre uma agulha e outra:
-Como você sente a vida?
-Como assim?
-Assim: como você sente a vida?
-Ai!
...e um monte de sons (que me dizem somente do soar da lingua na boca) e duas risadas, signo claro, sem mais explicações...
Como pode minha dor promover o seu riso?
É assim que sinto a vida.
-Como você sente a vida?
-Como assim?
-Assim: como você sente a vida?
-Ai!
...e um monte de sons (que me dizem somente do soar da lingua na boca) e duas risadas, signo claro, sem mais explicações...
Como pode minha dor promover o seu riso?
É assim que sinto a vida.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
poeirinha
Tio gordo moreno na cadeira de balanço à luz empoeirada da cidade velha, rua da praça, tom sério, me perguntou:
-Cê tem bruchove?
Quase vinte e cinco anos, morena eu também, te imagino ainda gordo, vozeirão.
Digo um pouco, que deste ano, posso afirmar:
-Setembro chooooove!
-Cê tem bruchove?
Quase vinte e cinco anos, morena eu também, te imagino ainda gordo, vozeirão.
Digo um pouco, que deste ano, posso afirmar:
-Setembro chooooove!
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