segunda-feira, 19 de outubro de 2009

ponto, parêntese e reticência

...peço: alguns quilômetros de trilhos para o coração que descarrilha.
espaço e tempo
espaço
e tempo.

abre parêntese

e também:
pernas novas e fôlego ao corredor cansado
sol para a mulher que madruga

pele
pele
pele
pele
um suspiro

fecha parêntese

sábado, 3 de outubro de 2009

não sei como e quando me lê
não sei ao certo o motivo da exposição

de não saber
sei que já estamos todos bem cansados
na verdade, não sei.
e ninguém sabe
e ponto final

nada que identifique, todos porosos
todos semi nus
eu encontro, não acho mais
quero saber:
dá para acreditar?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

do caderninho antigo 1

Só leve como
sopro, só vento.
Sinto só
sonho




(...de setembro de 2005)

Pó,
leve como sopro.
Sol venta

terça-feira, 29 de setembro de 2009

das agulhas

Entre uma agulha e outra:
-Como você sente a vida?
-Como assim?
-Assim: como você sente a vida?
-Ai!


...e um monte de sons (que me dizem somente do soar da lingua na boca) e duas risadas, signo claro, sem mais explicações...
Como pode minha dor promover o seu riso?

É assim que sinto a vida.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

ando imaginando bastante
de imagem em imagem
um passo depois do outro
para passar rápido

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

poeirinha

Tio gordo moreno na cadeira de balanço à luz empoeirada da cidade velha, rua da praça, tom sério, me perguntou:
-Cê tem bruchove?

Quase vinte e cinco anos, morena eu também, te imagino ainda gordo, vozeirão.
Digo um pouco, que deste ano, posso afirmar:
-Setembro chooooove!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

movimento involuntário

ontem, o dia todo, um músculo da face a fez lembrar da contração que provoca o choro
era stress muscular
da cara feia
de cara feia

podem relaxar
pequenos grandes músculos

terça-feira, 15 de setembro de 2009

brega 1

dois dias faz frio
um dia faz calor
dois dias faz frio
o vidro embassou
na fresta tinha um olho
dois olhos me olharam
dois olhos de verão

primavera que não chega
-prima vera, chegue logo!
eu preciso urgentemente
dois botões
talvez três
outros tantos que nem sei
doem tanto apertados
chegue rápido
venha logo
desabrocho necessário

sábado, 12 de setembro de 2009

pequena reflexão

equilibrista vive
equilibrista um passo após o outro
um pé outro pé
na mão guarda-chuva

desequilibrista vive
sinal da vida é dor
desde o primeiro rompimento
dor é pedido de amor

domingo, 30 de agosto de 2009

o silencio é necesário 2

recolhimento necessário
ao sol
redondando

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

ultimamente não tem tido tempo último que não seja primeiro que não seja emergencialmente hoje
ultimamente não dá tempo nem de sentir
e mesmo assim sinto muito

terça-feira, 11 de agosto de 2009

esquizofrenia- 3 diálogos

O que escolheram desde então até aqui coube bem.
Caetano e Gil, Chico e Gal, Nara, Tom, Vinícius... todos esses vieram juntos e eu bebi bem, obrigada.
Comi bem, obrigada.
Enchi a cara, barriga e alma de coisas picadinhas, temperadas, amaciadas. Goela a dentro. Tá tudo ainda coladinho no estômago e transpiram dessa pele aqui.
(saem também nos cantarolares inconscientes, perfumam e colorem os sonhos)
Elas me revelam. Revelam nas próprias palavras.



...e degusto. De gosto; que o sabor também mudou, obrigada.
Os outros estão velhos, eu não estou.
- Desculpe, Eu não está!



Não dá tempo
dá tempo
não dá, tempo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

40

desajuste no peito
nos pequenos gestos
nos olhares trêmulos

desajuste do sono
do cheiro
da cama

um sem fim nem começo
efêmero respiro
suspiro quente
calor na nuca
frio da barriga

um presente
da grande ausência
do olhar que me despe

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Redonda compõe o céu

No chão,
redondos olhos

eu compondo com ela
me recomponho
me recoloco
e convoco sua luz

redonda ela
me olha assim
eu aqui de olhos miúdos, de olhos molhados,
de longe vejo:
redondo tudo,
O mundo, horas!


-Lua,
volto a encher!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

cinza

a chuva derrete
minh'alma
e não para de
c
h
over

segunda-feira, 20 de julho de 2009

libriana:
balança
dois pratos
duas moedas
duas medidas
dois pesos
um leve
outro pesado

copo meio cheio, meio vazio,
nem cá, nem lá.
prá onde?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

dos pés à cabeça

Dos pés à cabeça (Gilberto Gil, 1974)

"Eu estou onde está meu corpo
Meu corpo, onde estão os meus pés
Meus pés, onde está o chão
Ou então
Onde a cabeça
Com seu pensar em vão
Eu estou onde tudo esteja
Ou seja
Onde quer que esteja em mim
O céu, o chão, o não, o sim
A vontade de Deus
O meu corpo todo, eu acho
Vale quanto pesa e sente
Como pensa e é imenso
Como deve ser o vôo
Da terra pra lua
E a noite da lua
E a imensa viagem do dia do sol
E a continuação da imensidão
Pelo corredor da enfermaria
Daquele lugar aonde eu ia (...)"
tentativa de homenagem ao Gil que anda me acompanhando, mesmo sem saber, nos meus momentos de desestabilização.
(ele fez para a Bethânia)

sábado, 11 de julho de 2009

assopro

de que maneira agora vou dar forma a tudo que anda desajeitado?
tirei o chão de mim, flutuo sentindo os tendões arderem, passo o dia numa vertigem absurda, à noite não descanso e o coração bate com força massacrante.
e então, mais um furacão. desses que eu desejei calada, fingindo não desejar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

desejo fútil

não sou mulher de verbo. apesar de todas as palavras escritas aqui, as que eu sei dizer bem, as que eu defino com certeza, apesar de tudo isso, não sinto verbalizar-me.
elas saem da boca, sem parar. não parecem chegam a ouvido nenhum. não penetram.
como se à ti, fosse vazado.
dentro dentro dentro.
de que maneira chegar ao outro para que sinta me. assim como sinto.
de que modo deixar de ser transparente, transponente. de que modo existir
quantos modos de existir e nunca parecer em casa.
busco busco busco. e sinto fútil a necessidade que me vejas. mas sinto e não minto.
nessas palavras, nessa dança toda, nesse viver e caminhar.

sábado, 4 de julho de 2009

de canto de olho

Depois de algum tempo olhando dentro esgotei. Não que não haja mais para onde ver, é só que o olhar anda viciado. As palavras, texto e o mover.
Depois de um cochilo longo no meio da tarde olhei para o céu e ele me disse: minha cor não se define.
De tantas certezas sobre as cores do alto, deixo de olhá-lo.