sexta-feira, 11 de março de 2011

não ser a questão

É neste momento que decido silenciar um pouco a vida, meditar sobre este, aquele e o longínquo não sei quem nem quando. É no momento em que lembro de espaços esquecidos, empoeirados, salva-vidas de outros tempos.
"eu queria ser mais mística" foi o pensamento que me ocorreu ao ler a mensagem da tela: "o que você faria se não pudesse mais acessar aos dados desta conta? deixe aqui seu e-mail, telefone (...)".
Justo quando o telemóvel pifou e as mensagens antigas se foram junto com os contatos interrompidos.
Eu queria ser mais mística e saber ler sinais.
Me sinto descabida de repente neste lugar, antes acolhimento máximo. Não há o ímpeto, nem o fervor, nem o sangue azedo correndo, nem um coraçãozinho descontrolado.
Eu queria ser menos mística, mais incandecente, menos virgem, mais escorpião.
Não sabia o que queria mas me encontrei vestida, tingida e de cabelos novos.
Eles crescem como alerta do tempo, esse relógio fisiológico, máquina de enfeitar e criar mentiras.
Eu queria ter sido outra e, às vezes, poder não ser.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

-Mãe, engoli o mar.

Pelos olhos, também entrou por aí, por aqui, onde respiram narinas, sal nos ouvidos, sons, a boca secou, zunindo o sol que bambeia pernas magrelas e escuras, xique-xique de areia, nem flanela, nem água doce, o mar entrou voluptuosamente, afoito e violento engolindo menino engolindo mar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

quero juntar dois mundos

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

desfavela tiquatira

choque entre dois ou mais corpos,
uma tropa deles:
camisas no chão! cadernos nas árvores! mãos aos CEU's!
e os cavalos enormes, fortíssimos, robustos, viris
desavisados

rédia curta:
não há galope em tamanha concretude.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

bobinho, bobinho

cansei das bolinhas que eram adereços a este.
indaguei se eram também endereço.
conclui que estavam desbotadas.
deveria me mudar, jogar os rabiscos no lixo, pintar os cabelos

detectei superficialidade, efemeridade e falta de radicalismos do mundo virtual
seria eu, mais uma parte dele?
em cima do muro não tomei decisão drástica, escrevi este a mais, mudei temporariamente o envólucro.


clean.


talvez seja o último.


bobinho, bobinho.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

versão 2

Minha avó abriu um sorriso enorme ao ouvir a notícia de que eu prestaria Letras no final do ano. Tinha um fio de alface entre seus dentes.
E a memória disparou palavras de sua boca (!) : Canissal, canissal, cão e sal. Foi meu professor. O nome é grego. Agora está em São Paulo; ele que não gostava de mim, era sabida demais.

-Vó, vamos escovar os dentes?
-Tira o oxigênio.



-Letras?

-Vó, porque você tá deitando? A gente não ia escovas os dentes?
-Tinha uma pedra no meio do caminho.
-No meio do caminho tinha uma pedra.
-Que pedra suja!


sobre as pedras (versão 1)


Mas tinha uma pedra no meio do caminho. "Que pedra suja!" disse minha querida avó semi-lúcida, sobre a pedra do esquecimento em seu fluxo-caminho da sala para o banheiro. No meio do caminho tinha uma pedra; e ela se deitou na cama, ao invés de escovar os dentes.



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

sobre a morte

berro alto: essa música é minha, essa bola é minha, esse é meu, não dou, ponto final .
há um ponto, isto é fratura
.
memória em golfadas, muitos olhos, uma voz sombria, não consigo deixar as vírgulas, o ponto golpeou meu estômago. há um fim. sinto subir o calor paulatinamente da garganta para as amídalas, engulo seco regorgito amargo.
a fim, se irrompe a primeira contração muscular: fino grunhido berro acalenta. goteira.goteira.goteira.
(menina não chore menino não bata) .
homem finda.

(o ponto tem voz)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

quem és tu, mariana ? já de longe ouço mares e marias, anas; tens amores?
viro homem em teu nome para desejo sem culpa.
de boca, falo, anus. nua: anas não sanam.
ana, não somos,
em suma,
não somo,
não sou MAriana.


sábado, 5 de junho de 2010

carros naufragos

Daqui, do quarto andar, não é possível ouvir as gotas da chuva caindo no chão, quem dirá nas folhas das árvores. Da chuva ouço o contato molhado dos pneus dos carros com o asfalto. O encharcado abafa e dá leveza a aquele ruído automobilístico. O aconchego de dormir em som de chuva vira aconchego dos pneus se inundando em meus sonhos. Os carros nadam, ou esquiam em película encardida.
Pensou Santo Pedro que a chuva de Santo Paulo não seria absorvida por terra? Que chuva viraria aguaceiro a ser levantado por pneus?
Em noite insone, chove lá fora, aqui faz frio, e nada disso interrompe nem silencia a britadeira da esquina, nem mesmo aquela debaixo da pele.
Ainda assim,
carros aqui
nada(m).

sábado, 29 de maio de 2010

sem viver contrariado

Enfim, há o silêncio do interior de textura densa, sol e horizonte a poder ver e perder de vista.
Há o dar-se conta do estrondo por debaixo da pele
pela falta dos ruídos, pela música dos pássaros,
meu estado comprimido; armadura pesada sendo deixada pelo caminho da casa.
Em despir-se,
corpo em contato com o vento,
percebo a fadiga que foi carregar-me até aqui:
a cidade grande
não cabe em mim
nem eu silencio no vazio.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

não bastasse as entranhas
dei verbo
olhos
coluna, ar e fôlego

despi-me
em reverência
a tantos olhos esbugalhados
suplicantes de tanto muito tanto

de tato fico carente
em casa fico doente
na cama, só.

em lágrimas escorro.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

caladapeço
discretadescalça
simples
acalento

sábado, 8 de maio de 2010

sobre delimitar-se

curioso:
o que plaina é o chão debaixo dos pés,
airplane é casa feita de tijolos.

eu: bee
zummmmm!

mel nada:
amarga ácida cítrica
impossível conter a careta.

quem plaina em pleno solo
de repente num tropeço bobo
se vê olhando o céu
tendo o concreto em contato com corpo.
curioso:
é assim que me contorno.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

em busca por espaço para existência.
é possível ser e existir?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sentir é questão de pele, amor é tudo que move.

mèrci, Gilberto G.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

aCme

em branco
estado pleno
caibo eu perfeitamente em meu corpo
e subitamente,
num ardido grunhido,
dele me descolo.

é de prazer que falávamos
e foi por ele que,
(de fôlego preso)

águasas
caí
ram.

quarta-feira, 31 de março de 2010

o embate bruto com um objeto concreto faz com que eu, de repente, me sinta existente também como um objeto duro.

pela dor se faz contornos e concretude além da efemeridade da carne que pensa.

Osso tão duro quanto muro, tão quina quanto encontro de dois, tão rígido quanto o que pode, de súbito, esfacelar,

resta verbo?

segunda-feira, 29 de março de 2010

estrangeira still. brega in

in other mood
I felt like falling
in other language
just fighting to find out
other words with other sounds
to sound me different
to say me whispering
to calm (me) down
on stairs
on stars
on stage
one´s self
such thing just happens
someone is lost
souls are in dust
so sing me in a swing all

I, bet-bat,
better stop me in you.

segunda-feira, 22 de março de 2010

pontacabeça

Entre um passo e outro
um abismo.
Na iminência
fico eu paralisada,
gelo na boca do estômago
febre no peito
raízes nas costas
asas nos pés
tudo ao invés
ao revéz
diz-me:
onde?
ao norte
gente?
onde andas!
como estar-me
eu
existir posso
só.




solo.