quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Na magreza
pouca pele entre nós
é possível sentir meu pulso.

O seu
pausa,
o meu
vôo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

pretere

Deixam de te olhar e você finge uns dois balançar de ombros largados num respiro final.
Finalizado.
Você estampa um sorriso amarelo, produz gargalhadas regadas à alcool, acelera o passo duro, o corpo duro, os olhos duros.
Prefere não comentar.
Quer colocar o coração num pote grande, com cubos de gelo, para sentir o frescor.
-Prefere não comentar?
-Prefiro.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

palavra e meia

Queria escrever
em letras garrafais,
com jatos gordos de tinta preta,
num muro ainda branco,
uma palavra bem grande.

Para tirar do corpo
e me atirar no muro
em cima de palavrão,
vazar preto do ódio
embate mudo duro na carne.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mania a minha
querer ver
belezinha,
bem-aventurados,
bem-intensionados.


Até os bem-casados
tem acúcar cristalizado.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ao calor do sol e da lua estouraríamos
numa explosão única e audível
possíveis seriam
escamas
ou asas.
Então, por que pernas?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

prólogo para pó

Tive nessa noite algo de crise verborrágica, de excesso mesmo, redundante mesmo. Tentei dar forma em forma de escrita de garranchos no meu caderninho delicadamente guardado sobre o criado-mudo ao lado da cama. Na mudez do criado, paciente na escuta, alguns partos de partida prá quem onde sabe chego. Prá onde, quem sabe, chego. Prá quem chego onde sabe-nos. Prá quem chega e me parte.

Palavra palavra palavra palavrapalavrapalavra,
solto aos poucos, sem certeza de interlocutores. Vocês, se existem, não me deixam saber. Silensiosos ao som dos meus dedos em dígitos me abandonam no generoso espaço vazio, potente pelo o que ainda não sabemos. Prossigo. Mais um pouco, mesmo sentindo o tempo da morte se aproximar lentamente: a textura da minha leitura, meu leite que derrama, acho que tem prazo final.
Então sirvo, ainda quente, em bandeja fria e lustrosa:
deleitem-me.


(Permitida a primeira garfada, delicadeza no corte, por favor. Sigam em goles longos.)

sábado, 31 de outubro de 2009

clear

olho paro o dia de dentro
que é noite quente
e ando ardendo sem pudores para palavras
pois você, tela branca, aceita tudo.
e eu, tingida de cores, retiro-me em reticência
...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

bicho, grilo e havainas

outra gravidade
pouca gravidade
eu grávida de idéias
em estado contemplativo
o pensamento no correr das águas
temperatura ideal
som de bicho
som de mato
som do corpo

todos desejos de renovação

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sobre o que vejo

nós. logo antes de espatifar


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

confissão número 3

Descobriram que o sono não conteve o impulso motor. Caminhei e deitei na cama ao lado. Que sou sonâmbula. Então, a partir de hoje, escondo: eu e a chave da porta que dá para rua. Causa arrepios de repente descobrir-me em lugar qualquer, sem estar eu em mim do jeito habitual, desnudando-me por onde por quem prá que, em sonho...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

ao pé do ouvido

Se boca com palavras
se palavra com boca
se dentadas
se grunhidos
se sussurro
na língua restam outras
na boca
outros

Se dizer faz gritar em silêncio,
calo-me.

E então,
ouve?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

ponto, parêntese e reticência

...peço: alguns quilômetros de trilhos para o coração que descarrilha.
espaço e tempo
espaço
e tempo.

abre parêntese

e também:
pernas novas e fôlego ao corredor cansado
sol para a mulher que madruga

pele
pele
pele
pele
um suspiro

fecha parêntese

sábado, 3 de outubro de 2009

não sei como e quando me lê
não sei ao certo o motivo da exposição

de não saber
sei que já estamos todos bem cansados
na verdade, não sei.
e ninguém sabe
e ponto final

nada que identifique, todos porosos
todos semi nus
eu encontro, não acho mais
quero saber:
dá para acreditar?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

do caderninho antigo 1

Só leve como
sopro, só vento.
Sinto só
sonho




(...de setembro de 2005)

Pó,
leve como sopro.
Sol venta

terça-feira, 29 de setembro de 2009

das agulhas

Entre uma agulha e outra:
-Como você sente a vida?
-Como assim?
-Assim: como você sente a vida?
-Ai!


...e um monte de sons (que me dizem somente do soar da lingua na boca) e duas risadas, signo claro, sem mais explicações...
Como pode minha dor promover o seu riso?

É assim que sinto a vida.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

ando imaginando bastante
de imagem em imagem
um passo depois do outro
para passar rápido

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

poeirinha

Tio gordo moreno na cadeira de balanço à luz empoeirada da cidade velha, rua da praça, tom sério, me perguntou:
-Cê tem bruchove?

Quase vinte e cinco anos, morena eu também, te imagino ainda gordo, vozeirão.
Digo um pouco, que deste ano, posso afirmar:
-Setembro chooooove!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

movimento involuntário

ontem, o dia todo, um músculo da face a fez lembrar da contração que provoca o choro
era stress muscular
da cara feia
de cara feia

podem relaxar
pequenos grandes músculos

terça-feira, 15 de setembro de 2009

brega 1

dois dias faz frio
um dia faz calor
dois dias faz frio
o vidro embassou
na fresta tinha um olho
dois olhos me olharam
dois olhos de verão

primavera que não chega
-prima vera, chegue logo!
eu preciso urgentemente
dois botões
talvez três
outros tantos que nem sei
doem tanto apertados
chegue rápido
venha logo
desabrocho necessário

sábado, 12 de setembro de 2009

pequena reflexão

equilibrista vive
equilibrista um passo após o outro
um pé outro pé
na mão guarda-chuva

desequilibrista vive
sinal da vida é dor
desde o primeiro rompimento
dor é pedido de amor